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O filme "Paixão de Cristo": Uma denúncia contra a violência


Data: 17/09/2007

Por Wander de Lara Proença

O filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, provoca inúmeras reações. As cenas ali apresentadas, em um primeiro momento, podem nos levar a procurar culpados: judeus? romanos? Mas logo percebemos que esses, na verdade, representam a todos nós. As imagens encenadas são como um espelho a reproduzir em cores vivas as ações de maldade e de violência que o ser humano é capaz de praticar quando, ao invés de se orientar pelos valores do amor, da paz e da liberdade, prefere os interesses egoístas, o jogo dos poderes, a traição, a intolerância, o ódio, a guerra.
O enredo também gera decepção: as formas institucionais de poder criadas pelas sociedades, sejam políticas, jurídicas ou religiosas, podem perder sua legitimidade de existir quando, ao invés de promover o bem comum, zelar pela justiça e pela vida, se deixam manchar pela hipocrisia, pelo abuso de poder e pelos interesses puramente materiais e egoístas. Nesse aspecto, o filme quer alertar que em nome da justiça, da fé e de uma suposta defesa do bem coletivo, podem se cometer atrocidades.
Mas o trabalho de Gibson também nos apresenta um sinal de esperança. Durante a sua vida, Jesus mostra que mesmo quando isolado, perseguido, mal compreendido, difamado, ainda assim é possível amar, compadecer, perdoar, ser solidário. Ao percorrer o caminho da cruz ele amorosamente se solidariza com os oprimidos, doentes, marginalizados, publicanos, prostitutas, escravos e os que são tidos como hereges. Ele se torna um desses. Morre por esses. Por isso sua mensagem continuará ecoando como um alerta contra a violência e os abusos de poder - sejam pessoais ou institucionais - enquanto permanecer a indiferença em relação ao sofrimento do outro.
O filme também nos apresenta a mensagem de que poderemos continuar repetindo os atos da via crucis e do Calvário contra Jesus toda vez que não o percebermos na face de uma criança vitimada pela fome, nos corpos dos que são brutalmente torturados por regimes totalitários ou na morte de inocentes que se tornam vítimas de atentados terroristas. “Sempre que o fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes” (Mt.25:40). Ele sofreu e morreu na luta contra as causas objetivas que geravam e que, infelizmente, ainda geram sofrimento e morte. Ressurgiu para demonstrar que a sua causa e a sua missão não podem ser interrompidas. E o texto bíblico de Mateus 25;31-46 apresenta um dos parâmetros estabelecidos por Jesus ao orientar aqueles que dariam continuidade à missão por Ele desenvolvida: os sinais da chegada e da presença efetiva do reino de Deus deveriam ser materializados por atitudes que expressassem solidariedade aos que experimentam diferentes formas de necessidade. O caráter cristocêntrico de tais ações, explicitado nas palavras “sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt. 25:40), ganha delineamento com representações extremamente fortes, e até dramáticas, mas que revelam, ao mesmo tempo, a plena identificação do Salvador com a humanidade em sofrimento: “(...) tive fome, (...) tive sede, sendo forasteiro (...) estando nu (...) achando-me enfermo e preso (...) (Mt.25:42,43).
Na verdade, quis Jesus assim mostrar que a sua identidade continuaria a ser aquela que a cruz definiu, quando solidariamente experimentou ali, com e pela humanidade, as diferentes formas de violência que uma história ainda sob a égide do pecado é capaz de gerar: prisão, torturas, humilhação, fome, sede, desamparo, rejeição, exclusão. E, de igual modo, o grito desesperador do Calvário - “Deus meu, Deus, por que me desamparaste?” (Mt. 27:46) – continua a ser um memorial que profética e escatologicamente ecoa a espera de justiça, de solidariedade, de amor, de acolhimento em favor de todos aqueles que anseiam pelo direito e pela oportunidade de continuar vivendo.

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