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Porque C.S. Lewis


Data: 17/09/2007

Por Gabriele Greggersen

Apocalipse 3:8 Conheço as tuas obras - eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar - que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome.

Falar do óbvio é uma tarefa bastante ingrata. Mas talvez seja perdoável numa primeira intervenção não apenas autorizada, mas até requisitada pelos meus novos colegas da Faculdade Teológica Sul Americana, que têm mostrado grande interesse pelas minhas pesquisas.

Então, a nossa questão central aqui é “Por que dedicar mais de dez anos de estudo a C. S. Lewis?” A pergunta é um tanto suspeita vindo de que vem, pois quem me conhece já me associa quase que naturalmente a ele, considerando que minha tese de doutorado foi a ele dedicada, e também publicada pela Editora Mackenzie, instituição para a qual eu trabalhava na época.

Na verdade eu já pretendia escrever sobre ele na minha dissertação de mestrado, mas na época eu não fazia idéia da estatura desse autor, cujo obra de mais de quarenta livros, entre ficcionais, literários, filosóficos e teológicos, estava minimamente traduzida para o português e continua praticamente ignorada no Brasil.

A novidade para o público seleto que o conhece é que a Martins Fontes comprou todos os direitos do autor, seguindo os passos da Harper Collins, outra editora secular, que comprou os direitos de toda a obra de Lewis, inclusive as de ficção, nos Estados Unidos. Isso é uma resposta mais do que clara para a pergunta que um editor me fez há alguns anos atrás: “quem você pensa que leria Lewis no Brasil?”

Não vou ficar perdendo o seu e o meu tempo para falar da importância da obra de Lewis no mundo. Basta fazer uma pesquisa na internet ou observar as referências de grandes teólogos ou evangelistas do mundo e você certamente terá uma noção pálida da projeção do autor. Não preciso falar das incontáveis traduções já existentes para as mais diversas línguas e dos inúmeros grupos de discussão, fundações e sociedades organizadas em torno do autor. O que eu gostaria de compartilhar é a minha experiência pessoal com ele, a história de como foi que eu tropecei na sua obra.

Tudo começou quando eu vi um desenho animado, uma adaptação de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas, na televisão. Ele costumava passar na época do natal. Eu devia ter os meus dez anos de idade, portanto, isso já faz um bom tempo.

A história começava com uma menina, entrando para dentro de um guarda-roupas para se esconder dos irmãos num dia chuvoso, em que não podiam brincar lá fora. Ela anda, anda, e vai parar no mundo encantado de Nárnia, onde é noite e está nevando. Toda trama gira em torno de como as quatro crianças vão ser usadas pelo leão Aslan para cooperar no resgate daquele mundo da maldição que pairava sobre dele desde a chegada da Feiticeira Branca.

Tenho quase certeza de que o vi esse conto de fadas, que me comovia muito, mais de uma vez. E sempre estive sozinha ao vê-lo. Na época, eu gostei da história pelo seu enredo mesmo. Apesar de eu já ter sido convertida naquele tempo, não fiz nenhuma relação direta com a Bíblia e o cristianismo e esqueci o assunto.

Foi quando o líder da mocidade da minha igreja resolveu estudar as Crônicas de Nárnia, que eu me toquei, mesmo não tendo idade ainda para participar do grupo. Eu literalmente “engoli” não apenas esse episódio do total de sete Crônicas, mas outros livros do autor, como Cristianismo Puro e Simples, apesar de que, na época eu não tinha ainda “estômago” para digerir vários aspectos da obra do autor. E, mais uma vez, esqueci o assunto.

Então a vida foi se processando e eu me vi na Universidade de São Paulo, apesar dos meus planos iniciais terem sido de fazer seminário e me tornar missionária. Na verdade eu não estava gostando nada do curso de pedagogia, que eu tinha a ilusão de que ele tinha algo a ver com serviço social, a julgar pelo que uma missionária da Alemanha me havia dito. Acontece que aqui não é nenhuma Alemanha. Tratava-se de um curso extremamente teórico e filosófico, mais do que prático, como eu estava acostumada do curso técnico em administração que eu havia feito.

Então, como que do nada, surgiu um curso de filosofia que dava de dez a zero nos cursos pretensamente “práticos” de metodologia, didática, etc. O que me seduziu foi que ele falava da vida como ela é. Mas quando o professor ousou mencionar um nome que não me era estranho em plena aula, com minha total ignorância filosófica de então (não muito aprimorada até hoje), foi que aconteceu o “clique” definitivo. Ele havia citado um trecho de “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, obra que eu mal conhecia, mas que rendeu três horas ou mais de discussão com o professor que viria a ser o meu orientador, tanto do mestrado, quanto do doutorado, Luiz Jean Lauand.

Na verdade eu havia entrado no curso de pós-graduação da mesma maneira que entrei na USP: de susto, meio sem saber direito o que eu estava fazendo por ali. E isso, sob os auspícios de um dos maiores nomes da educação brasileira, depois de Paulo Freire: Moacir Gadotti.

Isso aconteceu na minha época militante. Infelizmente só bem depois é que eu fui descobrir que Freire era católico e não escondia o seu cristianismo. Mas naquele momento a minha igreja interior estava precisando de sapatas mais sólidas. Ela estava mesmo precisando é ser calçada, pois estava oscilando entre o idealismo marxista e o cristianismo humanista.

Foi então que Lewis voltou a entrar na história. Meu assunto original de dissertação era: a relação teoria e prática na educação. Sim, porque na minha visão das coisas, era esse o problema que se encontrava na raíz de todos os problemas educacionais.

E como eu já conhecia bem a natureza dessa relação, decidi delimitar melhor o assunto. Achei então que devia escrever sobre a tal da “dialética”, que eu mesma não sabia muito bem o que era. Quando eu fui falar dos meus belos planos ao meu anjo da guarda, digo, meu orientador, ele teve o bom senso de me informar de que era mais fácil eu ir estudar a sua língua de origem, o árabe, do que o assunto que eu estava propondo. Não precisou de mais nada para botar meus pés no chão.

Ao invés de ir estudar o árabe, então eu o convenci a ser o meu orientador, contrariando todo o protocolo acadêmico. E então ele fez a sugestão que me era totalmente remota: já que o estrago estava feito, porque não estudar o Lewis? Considerando a idéia, eu até desenvolvi um projeto, todo baseado nas Crônicas de Nárnia, que tanto haviam marcado a minha infância. Mas qual não foi a minha surpresa quando eu descobri o volume de obras que o autor havia escrito, a maioria das quais mal havia sido traduzida para o português...

Eu consegui até encontrar uma obra dele na biblioteca de uma escola americana em São Paulo. Foi justamente The Allegory of Love, sua dissertação de mestrado, e também uma de suas obras mais estritamente acadêmicas, em que ele cita uma infinidade de autores do quais eu nunca havia ouvido falar.

Sem falar que o meu inglês da época não era lá essas coisas. Resultado: desisti do projeto. Quem era eu para enfrentar esse peso pesado da academia e do que eu entendia na época como sendo teologia (agora já estou mais consciente de que se trata de algo bem diferente do que eu imaginava).

Então, decidi estudar um autor alemão, que por acaso também foi objeto de estudo do meu orientador, o filósofo e teólogo Josef Pieper1 e que, não por acaso, traduziu um dos livros mais teologicamente densos de Lewis, O Problema do Sofrimento, para o português.

Lógico que eu descobri que esse autor não havia escrito menos livros do que Lewis, mas o meu conhecimento da língua me dava alguma segurança. Então, acabei traduzindo parte do seu trabalho de doutorado, Luz Inexaurível, com notas para o leitor brasileiro e comentários. A grande vantagem disso era que ele me daria a base filosófica necessária para que eu pudesse algum dia encarar o Lewis.

Mal terminei de defender a minha dissertação, na saída do local do suplício, meu querido orientador tocou de leve no meu ombro para saber daquele meu projeto de doutorado, que eu mesma desconhecia. Exatamente, para a minha desgraça ele não havia se esquecido das minhas andanças com Lewis embora naquele momento, meu desejo era mais é ficar pelo menos dez anos longe daquela instituição.

Tudo isso aconteceu em setembro daquele ano. Em outubro eu estava reescrevendo o projeto de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas e em novembro, estava encaminhando a versão atualizada aos pareceristas, de modo que no ano seguinte eu já estava inclusa no programa de doutoramento da faculdade.

Foi aí que começou a minha peregrinação para comprar e ler a imensidão de livros que ele havia escrito. Na época não havia as facilidades “amazônicas” para se adquirir livros que temos hoje, de modo que me vi obrigada a ir até os Estados Unidos para pesquisar no maior centro de pesquisas em C.S. Lewis do mundo, o Wade Center, que fica no Wheaton College, perto de Chicago. O irmão mais velho do Lewis doou todos os manuscritos que ainda restavam para a instituição depois da sua morte. É claro que eu aproveitei para fazer um “workshop” sobre Lewis e conhecer uma série de especialistas e interessados no autor, que fui reencontrar em outros carnavais e lugares mais tarde.

Em resumo, eu acabei me tornando a única “especialista” em Lewis no Brasil e quando veio o centenário do nascimento do autor, em 1998, todos os meus planos e esforços para realizar algum evento comemorativo, que não foram poucos, foram frustrados. Então, naquele mesmo ano, Deus permitiu que eu participasse do big-evento, organizado pela C.S. Lewis Foundation, que fica na Califórnia e cujos integrantes, particularmente o presidente, Stan Matson, tornaram-se meus amicíssimos. Em 2001, Deus viabilizou uma segunda ida minha a Oxford e Cambridge, com apresentação de paper e tudo, já que o evento é quadrianual. Não sei bem o que vai acontecer no ano que vem, mas torço para poder conferir pessoalmente.

Mas, voltando à questão central: por que Lewis? Bem, houve uma época no meu percurso estudantil em que eu me senti bastante fora de mão. Na igreja, o pessoal me olhava torto por eu ser da USP. Acho que desconfiavam que eu fosse algum “bicho grilo” ou adepta da teologia da libertação. Já na faculdade, o pessoal desconfiava da minha fé mesmo.

A verdade é que eu sempre tive esse comichão pelos limiares, pelas zonas de fronteira, pelo front de batalha entre a academia e a igreja. E Lewis simplesmente me equipou para isso. Um autor, ao mesmo tempo, acadêmico, com todas as letras, e cristão, com mais algumas, pois, além de inteligente e sabedor, ele era autenticamente piedoso.

Para compreender a sua obra, é fundamental conhecer a sua vida. Clive Staples Lewis nasceu em 1898 na cidade de Belfast, Irlanda. Sua mãe morreu quando ele tinha nove anos de idade. Essa história de frustrações é narrada em Surpreendido pela Alegria, traduzido pela editora Mundo Cristão.

Depois da morte de sua mãe, ele e seu irmão passaram por vários colégios internos até que seu pai decidiu entregá-lo ao professor particular que também havia cuidado da sua própria educação. Somente então é que Lewis encontrou o seu rumo na carreira estudantil que acabou em Oxford e Cambridge, na área de crítica literária e história da literatura inglesa medieval e renascentista.

Sua conversão, na casa dos trinta anos de idade, que levou três anos para se processar, deu-se muito em decorrência de seus debates com o grupo de professores que mais tarde formariam um clube, chamado de “Inklings” ou “borrões” , “palpites”, “vagas noções”. O outro integrante, fundador foi nada mais nada menos, do que J.R.R. Tolkien, que também conseguiu convencê-lo de que a grande diferença do cristianismo em relação a outras crenças ou mesmo, à mitologia, é que ele sintetiza mito e fato. Cristo mesmo realizou historicamente o que os mitos só conseguem projetar, espelhar ou sonhar.

Amante que era de mitos, isso convenceu tanto Lewis que ele não apenas se converteu ao cristianismo mas também acabou desenvolvendo uma metodologia teológica que chamou de “teologia do romance”. Ele admite que essa não é a melhor palavra para definir o que eles costumavam fazer naquele grupo, que era uma leitura teológica da literatura de ficção, com especial destaque à mitologia, contos de fada e clássicos em geral, mas não havia outra expressão mais adequada.

Infelizmente no Brasil nós não temos uma clara noção do que seja o movimento romântico. Certamente não se trata de nada do que defendem os “escritores malditos” que por aqui passaram: depressão, angústia, sofrimento, embora tivesse relacionado a isso, sim. O que Lewis e Tolkien entendiam por “teologia” era uma espécie de “mapa” de orientação do peregrino, rumo à sua Terra Natal, ao seu verdadeiro lar. E, se considerarmos que todo autor, particularmente de ficção é um peregrino que tem esse alento, esse desejo ou saudade pelo lar perdido, então ele é um teólogo em potencial.

Então a “teologia do romance” nada mais é do que uma “cartografia” do que certas obras literárias têm a dizer sobre assuntos teológicos como o mal, a queda, a redenção, entre outros. Uma obra literária, principalmente a clássica, não importa a confissão religiosa do autor, sempre tem algo a dizer sobre teologia. Todo bom poeta acaba se traindo e falando mais do que pretendia dizer, como bem observa Adélia Prado numa entrevista recente.2

Pois a literatura já tem embutida em si mesmo essa pretensão de ser teológica, pois é fruto de um processo criativo que espelha o a criatividade divina.

Minha tese de doutoramento, Antropologia Filosófica de C.S.Lewis, (editora Mackenzie) e O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética (editora Ultimato) , são tentativas nesse sentido. Não se trata somente de leituras teológicas das respectivas obras, mas também análises filosóficas e educacionais.

Para se fazer esse tipo de leitura, o autor não tem que ser cristão. Eu particularmente já fiz ensaios bastante ousados com Carlos Drummond de Andrade e Monteiro Lobato. Ambos se diziam agnósticos. E é muito rica essa identificação de paralelos intertextuais entre estes autores e a própria Bíblia. Aliás essa é uma linha de pesquisa muito em voga nas universidades do exterior e que nós pretendemos introduzir também no Brasil.

Convido a todos os interessados a se unirem a mim nessa minha caminhada através da porta aberta do guarda-roupas, rumo ao sonho de fazer a teologia dialogar não apenas com a literatura, mas, através dela também com a educação, a filosofia, e tantos outros campos, dos quais, afinal de contas, foi a mãe. E não se esqueça: Não se esqueça: “seria uma tolice fechar-se dentro de um guarda-roupas” (O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas, Editora Martins Fontes, 1997, 14).

1Veja alguns de seus artigos, inclusive o texto principal de minha dissertação de mestrado, bem como excelentes artigos sobre filosofia de teologia, inclusive de Lauand e alguns artigos e contos de minha autoria no site da editora Mandruvá, http://www.hottopos.com.

2 Conf. entrevista com Lauand, disponível em http://www.hottopos.com.br/videtur9/renlaoan.htm, acesso em 31.08.2004.

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